“De que serve um tratado, perguntam, se a natureza já
é um elo suficiente entre os humanos.”
(p. 143)
IMPRESSÕES:
Utopia
é um dos textos mais importantes da filosofia política de todos os tempos, não
atoa é pioneiro em muitos aspectos (seja na sátira ou na criação literária de
mundos fidedignos), não há nada nele que não seja excelente e intrigante.
Influenciado pelos
pensamentos e ideais humanista de sua época, Thomas More, em seu brilhantismo
genial, conseguiu criar uma obra sem igual em 1516, fantasticamente descrita e
que demonstra constantemente sua especialidade em confrontar os sistemas e
formas de governo políticas que conhecemos e estamos acostumados ao nos expor à
um maravilhoso novo mundo relatado por seu amigo Rafael Hitlodeu,
marinheiro-filósofo experiente que em sua inúmeras viagens destemidas e
lendárias encontra Utopia, um país mais avançados que as demais repúblicas
europeias de sua época, apesar de seu isolamento nos arquipélagos equatoriais. Nomeada
a partir do grego u-topos (não lugar), a ilha de Utopia, fruto da
imaginação virtuosa do autor, é uma sociedade fundada em leis igualitárias, na
qual toda propriedade é comum e as pessoas vivem em harmonia, livres de
violência e intolerância religiosa, mas, principalmente, dos males e vícios
acarretados pela instituição da propriedade privada, já que nesse paraíso na
terra vigora o ditado grego de Pitágoras (“Tudo entre amigos é comum”)
que desvela o elo natural, sempiterno e excelso entre os seres humanos de suas
diferenças arbitrárias e incitantes de conflitos desnecessários.
O que me parece é
que todo grande escritor de mundos fantásticos e literários passou por Utopia
algum dia, vejo claramente que o George Orwell bebeu mundo do Thomas More, não
conseguia parar de fazer um paralelo entre Utopia e Oceania, como dois extremos
de um mesmo conceito. Eu amei toda a criação desse mundo, o idioma com signos
simples e correlativo ao latim, o mapa descritivo da ilha com um estilo das
navegações modernas, os vários nomes complexos e instigantes (como Abraxas e
Aindro) e todo os sistema político, social e cultural bem desenvolvido. Claro
que no começo descordamos da possibilidade da existência de tal sociedade, mas
quando pensamos que o desenvolvimento e a criação humana (ou seja, a educação
moral, religiosa, trabalhista e científica) pode ser a chave de virada para a
criação de um mundo mais justo e feliz acende uma faísca de esperança em nossos
corações, além de todas aquelas pulgas implantadas em nossas orelhas com
questionamentos e críticas acerca de nossas vidas em repúblicas ou governos
nada igualitários e ignóbeis em sua falsa nobreza baseados na ganância de algo
tão fútil como o dinheiro, que, sem dúvidas, é a raiz de todos os males.
O que tenho comigo
é a edição da Penguin - Companhia das Letras, que por sua vez está sempre muito
bem traduzida e recheada de referências explicativos dos tradutores,
especialistas e comentaristas da obra. Ela segue o modelo padrão da editora que
esbanja elegância, ainda mais se ao lado de outros livros do mesmo naipe,
deixando sua biblioteca com um formato simétrico e sofisticado, ainda assim
sinto falta das orelhas nas capas dessas edições, acabei deixando-a meio torta
enquanto lia.
Dou um 4/5 para
essa obra, não levo em conta a edição aqui, se não seria menor a avaliação,
contudo o More e seus amigos conseguiram um belo lugar na minha estante com seu
engenho, pureza de ideias e espírito apaixonado pelo bem da raça humana. Eu
sinto que era quase inevitável que lesse esse manuscrito, ele me pegou em meus
pontos cardiais, minha fé no Caminho e meu saber na construção literária de
mundos, com certeza ela me inspirou de maneiras que até agora mal sei
discernir, mas tenho certeza que não foi a última vez que visitei esse livro,
ou melhor dizendo, Utopia.
“Onde quer que esses dois males do favoritismo e da
ganância se insinuem no juízo dos homens, destroem de imediato toda a justiça,
a qual é a mais sadia garantia de sociedade civil.”
(p. 143)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)

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