“GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É PODER”
(p. 21)
IMPRESSÕES:
Eu nunca mais conseguirei
ver o mundo do mesmo jeito! Às vezes me parece que eu já havia lido esse livro
antes, outras que ele ainda me parece querer falar mais em suas páginas, isso
só mostra o caráter universal que o autor conseguiu captar em poucas palavras
de um possível mundo aterrorizador e desumano.
Em 1949, meses
antes de sua morte, Arthur Eric Blair estava entregando ao mundo uma distopia
futurista inédita e magistral que impactaria a história da literatura, 1984
é uma das obras escritas mais influentes e características do século XX, que
ganhou seu lugar na biblioteca dos clássicos modernos sem demora com sua
poderosa reflexão ficcional sobre a essência nefasta de qualquer forma de poder
totalitário e a sua atmosfera incomparavelmente opressora. Nele vemos Winston
Smith, nosso revolucionário escuso e atormentado pelo saber dos meios e das
mentiras em que a sociedade na qual está vivendo se utiliza para manter o status
quo e controlar as massas através da manipulação do acesso e propagação dos
vários tipos de conhecimento (linguagem, história, artes e outros sem fim de
meios de interação humanas). A Oceania, um dos três superestados mundiais
(conglomerados de países sob um regime totalitário) junto com a Lestásia e a
Eurásia, que impõe sua vontade e ideologia, com rédeas curtas, as inúmeras
massas categoricamente subdivididas em três castas (o Partido interno, o
externo e os proletários), onde cada uma segue regras, rotinas e estilos de
vida específicos, sendo todas, sem exceção, vigiadas continuamente pelos olhos
e ouvidos onipresentes do Grande Irmão, a genial personificação do poder
onisciente e cruel desse mundo antiutópico. É por meio de instituições
cínicas e autoritárias do Estado (os ministérios da verdade, do amor, da paz e
da abundância) que esse governo dita e rege a conduta de seus cidadãos auto
alheios as cordas que os controlam, principalmente através de um conceito e
prática mental de aceitação de contradições – o duplipensa – e a
reformulação constante da língua oficial da nação que condiciona as mentes
sutilmente a um estado básico de atividade cerebral – a Novílingua. É nesse mundo complexo que acompanhamos o
jovem rebelde ainda oculto se aventurar pelo perigo de ir contra esse sistema
polidamente bárbaro com o objetivo de derrubá-lo ao chão mesmo que demore
décadas para isso, quem sabe por intermédio de seu ingresso na lendária e
obscura organização, insurreta e subversiva ao sistema atual, chamada a
Irmandade, a qual Winston acredita com suas últimas esperanças que exista e
possa ajudá-lo nessa empreitada suicida.
Empolgação e medo
era tudo o que eu sentia, em alguns momentos o primeiro, em outros o segundo e
na maioria das vezes os dois ao mesmo tempo. Todo esse panorama de regras e
leis desperta em nós institivamente o sentimento de ignorar todas elas e fazer
todas as loucuras possíveis evitando ao máximo sermos pegos. Acho que foi isso
que o Winston e a Julia sentiram em suas veias, o desejo para quebrar cada uma
de suas amarras e viver de verdade nem que seja por um breve período de tempo.
Inclusive, eu sempre me perguntava por que o livro tinha esse título e
descobrir que nem os personagens sabiam se realmente era 1984 ou não me deixou
em um estado em que minha mente só pensava nisso, simplesmente genial, será
mesmo que estou vivendo em 2023 ou em outra data que me é velada? Além disso, é
visível que o George Orwell sabe muito mesmo sobre o que está escrevendo, toda
a análise no meio do livro sobre os tipos de governos totalitários sob a voz de
Goldstein em seu livro é altamente didática e sistematicamente empolgante. Destaque
aqui a criação de mundo feita, super detalhada e historicamente acurada, que
levou em conta todos os aspectos da vida humana, adorei conhecer esse mundo
altamente futurístico com aparelhos tele visíveis avançados (a teletela),
mas que continua numa situação atrasada tecnologicamente de propósito e
totalmente estagnada cientificamente. A virada no enredo na passagem do final
da 2° parte para a 3° me pegou direitinho, capacitada ao longo do romance, ela
me deixou num completo estado letárgico por algum tempo, dali pra frente não
larguei mais o livro, mesmo com as descrições das torturas, físicas e mentais.
No fim, parece que estamos no mesmo estado desacreditado do velho Winston, como
alguém que perdeu as esperanças de saída desse sistema facínora e esmeradamente
perverso.
Essa minha edição
também veio naquele box do autor confeccionado pela Pandorga, como havia dito e
repito com prazer: é um trabalho impecável e deslumbrante que havia permanecido
na minha lista de desejos por anos e quando finalmente adquiri me senti realizado,
duplamente inclusive, após a leitura maravilhosa, que ao meu ver é a melhor
edição da obra, simples, bela e atraente, os brindes abrilhantam ainda mais
todo esse esmero da editora, comprei-lo numa promoção muito boa, o que saiu por
uma pequena bagatela se comparado ao preço normal que é um pouco salgado as
vezes.
Essa obra merece o
triplo da nota que darei, obviamente 5/5, seja como uma distopia de um mundo
muito possível de se concretizar em nossa realidade ou como uma crítica pesada
as nações belicosas e totalitárias do século passado ou seus descendentes autoritários
de nossa era, 1984 é aquele livro que serve como guardiã e profeta para a
humanidade, um alerta para todas as gerações e uma inigualável experiência
literária, destacada invariavelmente por seu horror político e anti-humano.
Vivo o misto de querer ler novamente para descobrir mais e ter medo de reviver
toda a dor daquele cenário mais uma vez.
O Grande Irmão
está observando você!
(p. 18)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)

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