Introdução
Por que ler um poema do dia do músico sem ser propriamente o dia do músico? Simplesmente porque eu não conseguiria me aguentar até Novembro pra compartilhar essa obra fantástica com vocês, meu senso de urgência disparou quando o li pela primeira vez, entretanto, ele estava em inglês e eu não conseguia encontrar uma tradução em nenhum recanto dessa bendita internet, o que dificultou o compartilhamento, mas me encorajou imensamente a traduzi-lo e trazê-lo aqui pra vocês (pra qualquer um que "fuçe" a internet inteira atrás de uma tradução também).
O poema vai exultar a função da música na vida humana em suas diversas áreas, como apaixonado por mitologia grega, a descrição do mito de Orfeu e Eurídice em seu amor trágico e infindável foi o que mais me encantou, é de longe uma das minhas histórias favoritas, como também é o gênero dos poemas épicos a qual essa obra se assemelha, isso me fez desejar duplamente, como escritor, ter uma experiência prática de como é escrever algo do gênero. Fora que eu também não conhecia nada sobre a Santa Cecília, o que me fez estudar sua figura histórica que apreciei bastante. Eu sei que já estava tudo escrito e eu só fiz traduzir, mas ter que encontrar as plavras perfeitas para cada contexto sem cair na maior falha das traduções dos poemas (que é perder a rima em troca de uma fidelidade na passagem de uma palavra do idioma original para o português) me fez sentir realmente que estava escrevendo algo de cunho original. Longe de mim qualquer glória pelo poema, o Alexander Pope (21 de maio de 1688, Londres – 30 de maio de 1744, Twickenham, Londres) foi um dos maiores poetas britânicos do século XVIII e ele é que é o gênio aqui e de longe deve ser um autor que tem de ter suas obras trazidas aqui pro Brasil em linguagem acessível, por isso considere que minha tradução é apenas iniciante e provavelmente provisória.
- Mas quem é Santa Cecília???
Cecília de Roma é uma santa cristã da Igreja Católica que é considerada a padroeira dos músicos. Mesmo martirizada, estava "com o coração cantando um hino de amor a Deus" sendo considerada então padroeira dos músicos segundo a tradição católica, seu dia é comemorado anualmente em 22 de Novembro atrelado ao dia do músico (duas curiosidades: ela é a santa da Igreja Católica que mais tem basílicas em Roma e tocava um instrumento que antecedeu o piano). Ela viveu na Idade Média. E adorava cantar e tocar, ela foi obrigada a se casar, mesmo contra a vontade. E no dia das núpcias, conseguiu converter o marido e o cunhado, porém isso enfureceu o prefeito de Roma que condenou os três de pena de morte por decapitação.
Enfim, espero que leiam e se encantem, admirem, se emocionem e sintam o que mais suas almas quiserem ao terem o contato com essa obra de arte bela e profunda, deixarei também o original em inglês no final caso queiram revisar a tradução ou até mesmo ler o poema na lingua nativa dele.
Boa leitura! ^^
Ode do dia de Santa Cecília - poema por Alexander Pope
I.
Vós nove desçam! descei e cantai;
Os instrumentos de sopro inspiram,
A voz silente de cada fio acordai,
No soar das liras que vibram!
Em uma triste tensão de agradar
Deixei o alaúde que trina lamentar:
Deixe que da trombeta o som alto,
Até os arredores dos telhados
Reverbere o eco esganiçado:
Enquanto em notas lentas e mais prolongadas
Dos órgãos sopram intensas, majestosas e protocoladas.
Ouçam! os timbres, suaves e cristalinos,
Que gentilmente furtam os ouvidos;
Agora bem alto, e ainda mais alto erguei,
E os céus de sons espalhados enchei;
Exultantes em triunfo agora incham as notas ousadas,
No ar quebrado, trêmula, a música selvagem flutuava;
Até que, aos poucos, remota e insignificante,
Decaem as cepas,
Derretem a esma,
Em uma queda moribunda e agonizante.
II.
Pela música, sabem as mentes que pensam iguais,
Nem subir muito alto, nem afundar demais.
Se no peito surgem tumultuosas alegrias,
Aplica a música sua voz suave e persuasiva;
Ou quando a alma é pressionada com dores,
Exaltada é em ares animadores.
Guerreiras disparam com sons jubilantes;
Derramam bálsamo nas feridas abertas do amante:
A melancolia enche seu peito,
Morfeu desperta de seu leito,
Preguiça estira seus braços e acordas,
Inveja ouvindo deixa cair suas cobras;
Guerra interna não mais travam nossas paixões,
E ouvem sua raiva vertiginosas facções.
III.
Mas quando a causa do nosso País na guerra investe,
Como música marcial cada coração aquece!
Então, quando a primeira nau ousada se atira aos mares,
No alto da popa o trácio eleva sua tensão,
Enquanto Argo via as belas árvores
Desciam do Pelion para o chão.
Semideuses transportados ficaram em volta,
E homens se tornaram heróis com a nota,
Inflamados com os encantos da glória:
Cada chefe exibiu seu escudo vezes sete,
A desembainhar suas lâminas célebres:
Ressoam nos céus, mares e magmas
Às armas, às armas, às armas!
IV.
Mas quando através das infernais fronteiras
Que o Flegeton flamejante rodeia,
Amor, forte como a Morte, o Poeta levou
Para as pálidas nações do que já murchou,
Que som se ouvia,
Que cena aparecia,
Sobre todas as costas sombrias!
Terríveis brilhos,
Gritos sinistros,
Fogos a reluzir,
Guinchos de afligir,
Gemidos taciturnos,
Lamentos profundos,
E fantasmas torturados clamam surdos!
Mas ouça! ele toca a dourada lira;
E veja! que cada uma dessas almas respira,
Olhai, formas obscuras avançam!
Tua pedra, ó Sísifo, está parada,
Ixion sobre sua roda se acalma,
E os pálidos espectros dançam!
As Fúrias choram em suas camas de aço,
E as cobras de suas cabeças ouvem em desembaraço.
V.
Pelas correntes que sempre brotam,
Pelos ventos perfumados que sopram
Sobre as flores Elísias,
Por essas almas felizes em prados amarelos
que habitam no campo de Asfódelos,
Ou no amaranto das pradarias,
Pelas sombras heroicas armadas,
Brilhando pelas clareiras carregadas,
Pelos jovens que por amor morreram,
E que no bosque das murtas vagueiam,
Trazei Eurídice de volta à vida;
Devolva sua alma ou pegue a minha!
Ele cantou, e o inferno consentiu
Ouvindo a oração do Poeta;
Perséfone severa assentiu,
E devolveu-lhe a sua donzela.
Assim a canção poderia conseguir
Sobre a morte e o inferno resistir,
Uma conquista difícil e um êxito glorioso?
O destino rapidamente em seu derredor
Com o rio Styx nove vezes ao seu redor,
No entanto, a música ganha e o amor sai vitorioso.
VI.
Muito cedo, porém, volve os olhos Orfeu:
E de novo ela cai, e de novo morreu!
Como conseguirás as três Moiras domar?
Crime não houve teu, se não é crime amar.
E, agora, debruçado sobre os montes,
Junto à água das fontes,
Ou onde o Hebro abre seu caminho,
Rolando em um labirinto,
Completamente sozinho,
Inaudito e desconhecido,
Orfeu chora em gemidos;
E prantos invocando a alma querida,
Para sempre, sempre, perdida!
Agora pelas Fúrias cercado,
Confuso e desesperado,
Ele treme e clama ardente,
Sobre a neve do Ródope imponente:
Vede, selvagem como os ventos, sobre o deserto ele voa;
Ouve!, os gritos das Bacanais o Haemus ressoa -
- Oh veja, ele morre!
No entanto, mesmo na morte "Eurídice" ele entoa,
"Eurídice" ainda nos seus lábios corre,
"Eurídice" canta as vertentes,
"Eurídice" as enchentes,
"Eurídice" nas rochas e montanhas ocas ressoa.
VII.
Música que a dor mais feroz pode encantar,
E a fúria mais severa do destino desarmar:
A música que pode tornar a dor suportável,
E que faz desespero e loucura até agradável:
Nossas alegrias melhorar consegue,
Bem como a felicidade nos antecede.
Isso a divina Cecília encontrou,
E para o louvor do Criador o som confinou.
Quando o órgão copioso se une à corda afinada,
Os poderes Imortais seus ouvidos debruçam;
As nossas almas aspiram cada nota bem carregada,
Enquanto ares solenes melhoram a chama sagrada;
E os anjos do céu para ouvir se curvam.
De Orfeu os Poetas não mais se sentiram ternos,
À brilhante Cecilia foi dado maior prestígio;
As canções dele levantam uma sombra do inferno,
Mas as dela elevam uma alma ao paraíso.
Ode On St. Cecilia's Day Poem by Alexander Pope
I.
Descend ye Nine! descend and sing;
The breathing instruments inspire,
Wake into voice each silent string,
And sweep the sounding lyre!
In a sadly-pleasing strain
Let the warbling lute complain:
Let the loud trumpet sound,
'Till the roofs all around
The shrill echo's rebound:
While in more lengthen'd notes and slow,
The deep, majestic, solemn organs blow.
Hark! the numbers, soft and clear,
Gently steal upon the ear;
Now louder, and yet louder rise,
And fill with spreading sounds the skies;
Exulting in triumph now swell the bold notes,
In broken air, trembling, the wild music floats;
'Till, by degrees, remote and small,
The strains decay,
And melt away,
In a dying, dying fall.
II.
By Music, minds an equal temper know,
Nor swell too high, nor sink too low.
If in the breast tumultuous joys arise,
Music her soft, assuasive voice applies;
Or when the soul is press'd with cares,
Exalts her in enlivening airs.
Warriors she fires with animated sounds;
Pours balm into the bleeding lover's wounds:
Melancholy lifts her head,
Morpheus rouzes from his bed,
Sloth unfolds her arms and wakes,
List'ning Envy drops her snakes;
Intestine war no more our Passions wage,
And giddy Factions hear away their rage.
III.
But when our Country's cause provokes to Arms,
How martial music ev'ry bosom warms!
So when the first bold vessel dar'd the seas,
High on the stern the Thracian rais'd his strain,
While Argo saw her kindred trees
Descend from Pelion to the main.
Transported demi-gods stood round,
And men grew heroes at the sound,
Enflam'd with glory's charms:
Each chief his sev'nfold shield display'd,
And half unsheath'd the shining blade:
And seas, and rocks, and skies rebound
To arms, to arms, to arms!
IV.
But when thro' all th'infernal bounds
Which flaming Phlegeton surrounds,
Love, strong as Death, the Poet led
To the pale nations of the dead,
What sounds were heard,
What scenes appear'd,
O'er all the dreary coasts!
Dreadful gleams,
Dismal screams,
Fires that glow,
Shrieks of woe,
Sullen moans,
Hollow groans,
And cries of tortur'd ghosts!
But hark! he strikes the golden lyre;
And see! the tortur'd ghosts respire,
See, shady forms advance!
Thy stone, O Sysiphus, stands still,
Ixion rests upon his wheel,
And the pale spectres dance!
The Furies sink upon their iron beds,
And snakes uncurl'd hang list'ning round their heads.
V.
By the streams that ever flow,
By the fragrant winds that blow
O'er th' Elysian flow'rs,
By those happy souls who dwell
In yellow meads of Asphodel,
Or Amaranthine bow'rs,
By the hero's armed shades,
Glitt'ring thro' the gloomy glades,
By the youths that dy'd for love,
Wand'ring in the myrtle grove,
Restore, restore Eurydice to life;
Oh take the husband, or return the wife!
He sung, and hell consented
To hear the Poet's pray'r;
Stern Proserpine relented,
And gave him back the fair.
Thus song could prevail
O'er death and o'er hell,
A conquest how hard and how glorious?
Tho' fate had fast bound her
With Styx nine times round her,
Yet music and love were victorious.
VI.
But soon, too soon, the lover turns his eyes:
Again she falls, again she dies, she dies!
How wilt thou now the fatal sisters move?
No crime was thine, if 'tis no crime to love.
Now under hanging mountains,
Beside the falls of fountains,
Or where Hebrus wanders,
Rolling in Maeanders,
All alone,
Unheard, unknown,
He makes his moan;
And calls her ghost,
For ever, ever, ever lost!
Now with Furies surrounded,
Despairing, confounded,
He trembles, he glows,
Amidst Rhodope's snows:
See, wild as the winds, o'er the desart he flies;
Hark! Haemus resounds with the Bacchanals cries -
- Ah see, he dies!
Yet ev'n in death Eurydice he sung,
Eurydice still trembled on his tongue,
Eurydice the woods,
Eurydice the floods,
Eurydice the rocks, and hollow mountains rung.
VII.
Music the fiercest grief can charm,
And fate's severest rage disarm:
Music can soften pain to ease,
And make despair and madness please:
Our joys below it can improve,
And antedate the bliss above.
This the divine Cecilia found,
And to her Maker's praise confin'd the sound.
When the full organ joins the tuneful quire,
Th'immortal pow'rs incline their ear;
Borne on the swelling notes our souls aspire,
While solemn airs improve the sacred fire;
And Angels lean from heav'n to hear.
Of Orpheus now no more let Poets tell,
To bright Cecilia greater pow'r is giv'n;
His numbers rais'd a shade from hell,
Hers lift the soul to heav'n.
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