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Vidas Secas (por Graciliano Ramos)


 

TÍTULO: Vidas Secas
AUTOR: Graciliano Ramos
EDITORA: Principis
PÁGINAS: 96
PERÍODO: 12/08-05/09

 

“Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela.”

(p. 58)

 

IMPRESSÕES:

 

Sabe quando você encontra um livro e pensa que ele poderia se estender infinitamente em seus capítulos que você não enjoaria ou se cansaria de lê-los? Esse me provocou tal paixão, ainda que tamanha era a minha angústia ao andejar por suas folhas e palavras às vezes tão infelizes.

O grande Graciliano Ramos nos enfia no meio de uma seca braba do árido sertão nordestino e nos introduz a dura realidade de uma família de retirantes: Fabiano, Sinha Vitória, os dois filhos, o mais velho e o mais novo, e a cachorra Baleia; que lutam diariamente pela sobrevivência debaixo da quentura do sol, no abrasar da terra e no inflamar da alma em uma eterna e curta saga de injustiças sociais e de desumanização do sujeito em face das adversidades da vida e da natureza, tão magistral que inspirou um dos mais icônicos quadros de Portinari e uma obra clássica homônima do cinema brasileiro dirigida por Nelson Pereira dos Santos.

Me senti até um pouco envergonhado por ter nascido e sido criado no Nordeste brasileiro e ainda assim ter uma ruma de palavras e verbetes tradicionais da nossa fala cotidiana na obra que eu não conhecia e tive de recorrer a pesquisas online, principalmente com os nomes da flora da Caatinga e algumas nomenclaturas incomuns até pra mim.

 

“Havia muitas coisas. Ele não podia explica-las, mas havia.”

(p. 26)

 

Eu sempre ouvi rumores de um livro com uma cadela de nome peculiar que perambulava a Caatinga e levei o belo adiantamento de que ela vinha a falecer bem no meio da obra, mas só isso, não conhecia o Fabiano, mais bicho do que gente, um cabra tabaréu, vaqueiro amansa brabo tão humanamente desumanizado que dói na nossa alma ler a dele. Nem Sinha Vitória, mulher forte e prendada, um morango no Nordeste, e os seus dois filhos, o mais velho e sempre curioso acompanhado da sua melhor amiga de quatro patas que era basicamente uma pessoa da família, e o mais novo, corajoso montador de cabras e aspirante a vaquejadas, cópia escarrada do seu pai. Além do tal, infame e constantemente citado, seu Tomás da Bolandeira que eu estava doido pra saber mais, de tanto que falavam dele agora o amo e o odeio, diferente do patrão do nosso matuto que eu só odeio mesmo, e o amarelo fardado que sinto asco.

Ler esse título até o fim comendo minha tapioca num dia ensolarado de fritar ovo na calçada foi uma delícia, apesar de ter demorado demais para finalizar a leitura, pois desde o primeiro capítulo senti tamanho apego que não queria abandoná-lo nunca mais, o pior era saber que ele é bem curtinho o que me dava ainda mais temor. O contexto apresentado por essas figuras era a realidade que a minha avó e meus ascendentes tiveram, o que me tocou ainda mais saber quanta dor e sofrimento seus quengos, pés e corações passaram na esperança de uma chuva que trouxesse ressurreição tanto na terra quanto em suas vidas que nunca foram secas de fé, esperança, amor de um povo cristão que via na desgraça da seca a beleza de um viver árduo e humilde, mas honesto, do homem.

A Editora Principis fez um excelente trabalho novamente, sondei muitas outras edições antes de escolher essa, algumas delas bem tentadoras, contudo, a que tomei em mãos me pareceu a mais formidável, e realmente o é, a capa trazendo uma cor intensa e uma xilogravura da saudosa Baleia com uma textura fosca é um deslumbre por si só, de resto o padrão do selo não há o que discutir: papel amarelado apropriado, bom corte de páginas, gramatura agradável, tudo bem singelo e a um custo mega acessível, como tudo deveria ser.

Há só dois erros ortográficos que consegui encontrar, o que já é bem impressionante, mas o uso do nome “Catinga” me deu certa animosidade, ambas as formas se revelam adequadas para a referência a mata branca, todavia, a tradicional me soa caracteristicamente mais regional, o que dá uma camada a mais de profundidade ao ambiente da saga sertaneja.

Eu desejaria dar uma nota melhor que 5/5, uma obra prima tanto do autor quanto literatura brasileira que quanto mais mergulho, ainda mais me encanto, o retrato da vida sertaneja, nas alegrias e nas tristezas, pintado pelo Graciliano é tão apurada em seu realismo que transparece solenidade atemporal, a Caatinga pode ser uma mãe dura, principalmente no verão, mas seus filhos sempre nutrirão um amor inexplicável por ela apesar de tudo.

 

“Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.” 

(p. 70)


Resenha: John Miranda

(@john.miranda_ejma)

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