“Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora
sofresse com ela.”
(p. 58)
IMPRESSÕES:
Sabe quando você
encontra um livro e pensa que ele poderia se estender infinitamente em seus
capítulos que você não enjoaria ou se cansaria de lê-los? Esse me provocou tal
paixão, ainda que tamanha era a minha angústia ao andejar por suas folhas e
palavras às vezes tão infelizes.
O grande Graciliano
Ramos nos enfia no meio de uma seca braba do árido sertão nordestino e nos
introduz a dura realidade de uma família de retirantes: Fabiano, Sinha Vitória,
os dois filhos, o mais velho e o mais novo, e a cachorra Baleia; que lutam diariamente
pela sobrevivência debaixo da quentura do sol, no abrasar da terra e no inflamar
da alma em uma eterna e curta saga de injustiças sociais e de desumanização do
sujeito em face das adversidades da vida e da natureza, tão magistral que
inspirou um dos mais icônicos quadros de Portinari e uma obra clássica homônima
do cinema brasileiro dirigida por Nelson Pereira dos Santos.
Me senti até um
pouco envergonhado por ter nascido e sido criado no Nordeste brasileiro e ainda
assim ter uma ruma de palavras e verbetes tradicionais da nossa fala cotidiana
na obra que eu não conhecia e tive de recorrer a pesquisas online,
principalmente com os nomes da flora da Caatinga e algumas nomenclaturas incomuns
até pra mim.
“Havia muitas coisas. Ele não podia explica-las, mas
havia.”
(p. 26)
Eu sempre ouvi
rumores de um livro com uma cadela de nome peculiar que perambulava a Caatinga e
levei o belo adiantamento de que ela vinha a falecer bem no meio da obra, mas
só isso, não conhecia o Fabiano, mais bicho do que gente, um cabra tabaréu,
vaqueiro amansa brabo tão humanamente desumanizado que dói na nossa alma ler a
dele. Nem Sinha Vitória, mulher forte e prendada, um morango no Nordeste, e os
seus dois filhos, o mais velho e sempre curioso acompanhado da sua melhor amiga
de quatro patas que era basicamente uma pessoa da família, e o mais novo, corajoso
montador de cabras e aspirante a vaquejadas, cópia escarrada do seu pai. Além
do tal, infame e constantemente citado, seu Tomás da Bolandeira que eu estava
doido pra saber mais, de tanto que falavam dele agora o amo e o odeio,
diferente do patrão do nosso matuto que eu só odeio mesmo, e o amarelo fardado
que sinto asco.
Ler esse título
até o fim comendo minha tapioca num dia ensolarado de fritar ovo na calçada foi
uma delícia, apesar de ter demorado demais para finalizar a leitura, pois desde
o primeiro capítulo senti tamanho apego que não queria abandoná-lo nunca mais,
o pior era saber que ele é bem curtinho o que me dava ainda mais temor. O contexto
apresentado por essas figuras era a realidade que a minha avó e meus ascendentes
tiveram, o que me tocou ainda mais saber quanta dor e sofrimento seus quengos,
pés e corações passaram na esperança de uma chuva que trouxesse ressurreição
tanto na terra quanto em suas vidas que nunca foram secas de fé, esperança,
amor de um povo cristão que via na desgraça da seca a beleza de um viver árduo
e humilde, mas honesto, do homem.
A Editora
Principis fez um excelente trabalho novamente, sondei muitas outras edições
antes de escolher essa, algumas delas bem tentadoras, contudo, a que tomei em
mãos me pareceu a mais formidável, e realmente o é, a capa trazendo uma cor
intensa e uma xilogravura da saudosa Baleia com uma textura fosca é um
deslumbre por si só, de resto o padrão do selo não há o que discutir: papel
amarelado apropriado, bom corte de páginas, gramatura agradável, tudo bem
singelo e a um custo mega acessível, como tudo deveria ser.
Há só dois erros
ortográficos que consegui encontrar, o que já é bem impressionante, mas o uso
do nome “Catinga” me deu certa animosidade, ambas as formas se revelam adequadas
para a referência a mata branca, todavia, a tradicional me soa
caracteristicamente mais regional, o que dá uma camada a mais de profundidade
ao ambiente da saga sertaneja.
Eu desejaria dar
uma nota melhor que 5/5, uma obra prima tanto do autor quanto literatura
brasileira que quanto mais mergulho, ainda mais me encanto, o retrato da vida
sertaneja, nas alegrias e nas tristezas, pintado pelo Graciliano é tão apurada
em seu realismo que transparece solenidade atemporal, a Caatinga pode ser uma
mãe dura, principalmente no verão, mas seus filhos sempre nutrirão um amor
inexplicável por ela apesar de tudo.
“Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.”
(p. 70)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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