“Minha mãe avisou que coisas importantes não gostam de
serem enterradas.”
(p. 10)
IMPRESSÕES:
Filho
de peixinho, peixinho é, já dizia o ditado, mas nesse caso,
filha de atlante é o mais correto a se dizer porque Liv é a versão feminina de
seu genitor, Nico Varanakis, tanto nas qualidades quanto nos defeitos e a
autora soube descrever isso.
Jenna Evans Welch
vem nos surpreender novamente com um romance aventuresco em um país distante e
com uma cultura encantadora, agora ela nos leva para a ilha de Santorini onde
conhecemos o drama da greco-americana Olive (Liv) Varanakis, vulgo Indiana
Olive, uma garotinha abandonada pelo pai que partira, sem mais
explicações, em busca da cidade submersa das lendas antigas. A pequena
exploradora cresceu e deixou a vida de aventuras para trás, assumindo uma
persona descolada de adolescente popular do ensino médio vivendo sua vida
social o melhor que pode com seu namorado excepcional em demasia, até que os
cartões postais escritos em grego começam a surgir e ela recebe uma chamada do
destino, afim de deixar tudo para trás, para não só reencontrar o seu pai como
também para ajudá-lo a achar Atlantida naquela ilha paradisíaca. Tudo isso, é
claro, enquanto gravam um documentário para a National Geographic sob a
direção exemplar e o olhar intrusivo das lentes de Theo, um jovem poliglota e
engraçado tão traumatizado com o pai quanto nossa protagonista.
“O mundo é feito de pessoas que se arriscam e de
pessoas que à margem, assistindo.”
(p. 161)
Vou confessar que
não gostei da Liv, na verdade, admito que o Nico deveria ser a estrela do
livro, mas entendo bem que o romance entre ela e o Theo tinha de rolar e ainda
bem que se encerrou bem quando eles decidiram ficar juntos porque ia dar
trabalho explicar como tudo se seguiu depois, sinto muito pelo Dax ter sido
dispensado por ligação, isso foi bastante cruel, não esqueço ele também foi
meio imaturo por toda a obra, fora que a Liv estava flertando com o Theo desde
que se conheceram e até tentou beijá-lo, o que parece tudo meio estranho porque
ninguém é instável nos relacionamentos, nem os jovens e nem os adultos, não há
um exemplo de fidelidade conjugal, deixando minhas revoltas de lado, penso que
a história deveu um romance entre o Nico e a Ana, só acho.
Sobre o enredo
devo reconhecer que a autora fez o trabalho de casa direitinho, foram primorosas
as introduções com os itens da lista que por si só é uma ideia genial, mas todo
o pano de fundo com as teorias e supostas evidências da existência de
Atlântida, até a citação de Platão e a referência ao Oricalco, é algo
que só quem já sabe um pouco das histórias vai admirar ainda mais a escrita (eu
sabia kkk fiquei emocionado em ver o trato da Jenna com cada detalhe), mas
admito que se ela terminasse a obra dizendo que eles encontraram algo seria um
fim ainda melhor, acho que ela teve receio de dar essa passo.
Ah, descobrir que
o Nico tem um condição mental divergente explica muito porque a própria filha
finge ser uma outra pessoa assim que seu pai parte, consciente ou
inconscientemente, a Olive o imita e, assim, cria a Liv, sua persona
anti-atlantis, até que finalmente encontra, ou é encontrada, em seu elemento
natural, o mar grego, que a sua outra face tanto temia, por isso tinha
pesadelos se afogando no oceano. O meio para isso é a Biblioteca de Atlântida (βιβλιοπωλείο
Ατλαντίδα) que de fato existe (sim, eu fui pesquisar as ilhas e acabei achando
ela também kkk) e é magnífica, mágica nas palavras da protagonista e da autora,
tudo no ambiente e todos os personagens gregos são interessantes, adendo ao
belo plot twist bem construído do canadense.
Por fim, o grand
finale com o documentário que se tornou mais um registro de família do que
algo científico é tão lindo e vivido que parecia que eu estava lá assistindo
também, foi algo muito bem bolado e desenvolvido por toda a trama, merece que
eu tirei o meu chapéu. Não importa o que digam, eu creio que o Nico ainda
achará a Atlântida verdadeira antes de morrer, ele tem aquele fogo dentro de
si, que muitas vezes falta em nós, que faz com que sonhos se transformem em
realidade!
“O que ganhar dinheiro tem haver com arte? Você não faz
arte para ganhar dinheiro. E não faz porque é conveniente. Faz porque é o que
veio ao mundo para fazer e, se não fizer, estaria fugindo de si mesmo.”
(p. 254)
Digo e repito: a Intrínseca caprichou nessa trilogia,
a excelência é visível, comprei o box por uma pechincha numa promoção e nunca
mais ele ficou por um preço igual, nem de perto, o material da caixa e dos três
livros realmente são de alta qualidade, o tema fosco que lembra papel reciclado
é um charme, as ilustrações simples e bem coloridas são adoráveis, os detalhes
dos capítulos são lindíssimos, as paletas de cores muito bem usadas, o papel e
a diagramação primorosos, a tradução excelente (só achei um erro ortográfico),
enfim, eles se tornaram um referencial de livro e de romance para mim.
Não é um defeito,
só um adendo, mas entre o capítulo 25 e o 26 achei que a autora perdeu a
oportunidade de um ótimo cliffhanger com o início de capítulo igual ao
demais com a breve introdução de um item da lista, nada que atrapalhasse a
leitura, só minha obsessão por padronização falando. 5/5 fácil, tanto ele
quanto os demais ficariam na minha biblioteca para sempre se eu não tivesse
doado o box para uma amiga, porém valeu a pena, ela disse que está amando também.
“Às vezes, seguir adiante é tão simples quanto admitir
o que já sabe.”
(p. 416)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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