“Se o mundo soubesse um dia a história que eu te
conto, Paulo, ele exclamaria sem dúvida: ‘É impossível! Essa mulher não
existiu!’. E o mundo teria razão.”
(p. 72)
IMPRESSÕES:
Eu estava decidido
a iniciar uma jornada pelos clássicos brasileiros após ler tanto os
estrangeiros, parte de mim sabia que devia começar por Machado de Assis ou José
de Alencar, Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Iracema eram
as obras pelas quais mais anelava meu coração, mas como não escolhemos por quem
vamos nos apaixonar mal sabia eu que iria acabar amando Diva, mirei no
autor certo, mas na mulher errada.
Após uma longa
data sem manter contato com o amigo, o médico recém-formado, Augusto Amaral,
envia um extenso documento para o seu colega, Paulo, no qual relata o salvamento
de uma enfermidade que quase a leva à morte a jovem Emília e o despertar de uma
paixão por ela anos depois quando se reencontram. Diferente da garota tímida e
retraída de quem cuidou, a moça extremamente encantadora e mais bela da corte,
uma diva dos salões e das afeições, Mila se revela como uma donzela rodeada de
pretendentes, tendo olhos para todos... menos para Augusto, até que os corações
dos dois são despejados na alma um do outro em meio as intempéries do amor que
cresce como uma flor selvagem, com suas diáfanas pétalas e bruscos espinhos, ao
passo que estreitam sua relação.
“Para que serviria a vida, se ela fosse uma cadeia?
Viver é gastar, esperdiçar a sua existência, como uma riqueza que Deus dá para
ser prodigalizada. Os que só cuidam de preservá-la dos perigos, esses são os
piores avarentos!”
(p. 69)
Ganhei essa obra
de uma nova amizade que desenvolvi nos últimos meses, veio com uma ótima
dedicatória (na verdade nunca ganhei um com dedicatória antes), veio com alguns
trechos grifados, o que pra mim é um sacrilégio para a experiência literária,
mas como estava com a mão direita machucada e não podia anotar as passagens em
meu diário de leitura, acabei acatando a ideia e acabando de grifá-lo por
inteiro, ela dizia-me que eu iria adorar a leitura, acabei amando.
É impressionante
como a leitura é cativante, o enredo é tão envolvente que eu não queria parar
de ler o livro pra fazer qualquer outra coisa, tive de me obrigar a dar pausas
para comer, a escrita pode estar em um português um pouco mais antigo, mas
ainda assim é claro e acessível sem deixar de ser bem culto, volta e meia tinha
de pesquisar uma palavra ou outra e isso eu amo fazer. Ambos os personagens
principais, a diva e o galã, são bem escritos, com boas camadas e espíritos que
nos tocam profundamente, me identifiquei muito com a melancolia de Amaral e o
idealismo amoroso da Duartesinha, não consegui deixar de querer que eles
ficassem juntos nem por um segundo apesar das raivas que as situações que os
dois se metiam me fizessem sentir.
“Havia nela inspiração heroica e a tentação satânica
que o gênio do bem e do mal derrama sobre a humanidade pela transfusão da
mulher.”
(p. 101)
A editora
Principis tem essa simplicidade que por vezes mostra grande elegância na sua
frugalidade, a edição não trás nada de especial além da própria obra que por si
só já é uma joia rara para qualquer biblioteca, seu brilho em nada é ofuscado,
mas é de se admitir que as folhas amarelas e de gramatura especificas são
ótimas para a leitura, a capa é singela com um retrato do perfil de Emília (que
por acaso parece muito com uma amiga escritora minha) num material ótimo para a
limpeza, em suma, uma ótima feitura.
É vergonhoso dar
apenas 5/5 para essa obra maravilhosamente intensa, um presente tão inesperado
quanto bem-vindo, José de Alencar não brinca mesmo, o final foi a minha parte
favorita, o vigésimo capítulo é tão arrebatador que o li unas três vezes
seguidas eu acho, que minha ventura amorosa (bem semelhante à deles) possa ser
tão bela e forte quanto a experiência desses dois e da leitura de seu ardente e
flórido romance.
“Espere! Talvez não espere muito tempo!”
(p. 78)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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