“Aqui somos todos loucos. Eu sou louco. Você é louca.”
(p. 72)
IMPRESSÕES:
Uma menina vai atrás de um coelho numa toca sem fim e acaba
vivendo uma história mais louca do que quaisquer sonhos que já tivemos num
mundo maravilhosamente maluco e extraordinariamente desvairado com criaturas e
personagens à altura dessa alucinação mórfica... Mais tarde ela retorna a ele
através dos espelhos e se mete numa partida de xadrez totalmente incomum e
insana com direito a mais poesias sobre peixes do que poderia suportar num
banquete onde nada se come e tudo se apresenta.
Tudo nesse mundo é muito vivaz em nossas memórias: o coelho
branco que sempre se atrasa, o chapeleiro maluco que não cessa de tomar chá com
a lebre de março e a ratazana, Tweedledee & Tweedledum, a rainha com mania
de decapitação e o rei sem moral, além de todos os animais birutas (amo os
Pães-com-borboleta) de Tulgey Wood.
Todo mundo conhece um pouco do País das maravilhas que o
Carroll criou, mesmo não conhecendo todo o processo pelo qual ele passou até
chegar em nossas mãos (graças a influência da família Liddell), anos atrás
quando eu descobri que esse nome era só um pseudônimo fiquei em choque. Charles
Lutwidge Dodgson (1832-1898) foi de um tudo: romancista, contista, fabulista,
poeta, desenhista, fotógrafo, matemático e reverendo anglicano britânico, além
de lecionar matemática no Christ College, em Oxford, sendo autor de várias
outras obras de lógica.
Cheio de invenções que hoje nos parecem malucas e antiquadas,
nada que ele fez me enche mais os olhos e me inspira a escrever do que o uso de
palavras-valise para criar as mais loucas formas de expressão linguísticas, tendo
seu ápice no poema do Jaguadarte (Jabberwocky) contida na segunda
aventura de nossa pequena Alice. Me encantei assim que li anos atrás, antes de
encontra-lo aqui na sua fonte, isso me marcou tanto que de 2020 para cá me
sentia sedento por conhecer mais do trabalho do Carroll, principalmente esse
clássico e ler uma vez mais a lenda desse monstro que ganhou um recôndito no
meu coração.
Admito que de todas as adaptações já feitas dessa obra,
nenhuma supera ou chega aos pés da animação feita em 1951, ao ponto de acha-la
melhor do que o próprio livro, mas fora ela, nada nunca conseguiu captar toda a
maestria desse trabalho maestral. Não sei se posso afirmar isso, mas o tenho
como o único conto de fadas non-sense, além de ser a primeira e maior
obra desse último gênero, fora todo o valor histórico e cultural que traz consigo
em suas alegorias e palavras.
Esperei muito, demais até, para conseguir essa edição da
Pandorga que na minha opinião é a melhor do mercado editorial nesse tempo,
superando no meu ver as demais com maestria na maioria dos aspectos,
principalmente no custo benefício. Penso que não consigo apontar erros nessa
edição, adorei os brindes que vieram com ela, todo o esmero da editora com o
trabalho do Carroll é visível e admirável entre essas páginas.
Ainda assim fiquei tão mais perdido na narrativa quanto a
própria Alice que mal entendia o que estava acontecendo ao seu redor, mas toda
a criação de mundo envolvida e as questões filosóficas subliminares por detrás
das falas e cenas lhe dão um aspecto mais profundo do que poderíamos captar
apenas em uma leitura. Eu o avalio como 4/5, altamente indicada para qualquer
um, principalmente em sua tenra idade, uma pilastra na minha biblioteca e nas
minhas referências literárias para a escrita.
“Vida, o que é isso senão um sonho?”
(p. 275)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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