“Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel
comum bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.”
(p. 266)
IMPRESSÕES:
Não há como não se
relatar com a protagonista desse romance e suas angústias profundas em relação
ao futuro cheio de possibilidades, ouso dizer que esse é um tema universal do
gênero humano e a Sylvia Plath nos mostrou todo o seu talento ao conseguir
captar e transmitir esse sentimento inescrutável em palavras, toda a angustia e
pavor que estagnam o jovem espírito desnorteado, em poucos lugares vi ele tão
bem descrito como em A redoma de vidro.
Publicado
originalmente em 1963, semanas antes da morte de Sylvia, o livro é repleto de
referências autobiográficas, e a narrativa é inspirada nos acontecimentos do
verão de 1952, quando Silvia Plath tentou o suicídio e foi internada em uma
clínica psiquiátrica. No romance, nossa heroína, Esther Greenwood, é uma jovem
que sai do subúrbio de Boston para trabalhar em uma prestigiosa revista de moda
em Nova York. Aqui podemos relatar mais coincidências literárias, pois, assim
como a protagonista, a autora foi uma estudante com um histórico exemplar que
sofreu uma grave depressão. O que nos levar a crer que muitas questões de
Esther retratam as preocupações da própria Sylvia que fez parte de uma geração
pré-revolução sexual, em que as mulheres ainda precisavam escolher se
priorizavam a profissão ou a família, mergulhando em grandes indecisões e
escolhas frustradas. Além da elegância da prosa de Plath, o livro extrai sua
força da forma corajosa como trata a depressão, nos apresentando mais do que um
relato sobre problemas mentais, mas sim, uma narrativa singular acerca das
dores do amadurecimento, de suas decisões difíceis e as consequências
impactantes que acarretam.
A
redoma de vidro é mais uma daquelas leituras maravilhosas
que me foi indicada em meio as minhas pesquisas acerca da literatura, não é de
se estranhar que não demorei muito para compra-lo, infelizmente demorei muito
para lê-lo, não era só a Esther que estava passando por um momento difícil
sabe? Cada capítulo foi uma grande pontada em mim, eu vivia uma situação
parecida, muito indeciso e decepcionado devido aos planos frustrados que havia
feito pro futuro que se desmancharam bem ali na minha frente enquanto tentava
entender Sylvia Plath, interrompendo minha leitura na metade.
Em meio ao caos da
depressão e de identificações com as situações descritas, eu só retomei a
história um mês depois quando já estava tentando me recuperar da perda, admito
que amei bastante o romance, a história é fantástica do começo ao fim, mas
tenho de dar créditos a personagem principal que é extraordinariamente bem
desenvolvida e genuína, se eu não soubesse que ela é um retrato da própria
Sylvia, diria que a autora estava realmente entrevistando as pessoas em
clínicas de reabilitação. Eu considero A redoma de vidro aquele livro
perfeito para universitários, quem sabe até alunos saindo do ensino médio, é
altamente proveitoso de várias maneiras, o contato com uma boa literatura, o
conhecimento de que há ajuda para casos semelhantes, uma antecipação do que é e
como não reagir a depressão e a angustia geradas pelas escolhas decisivas da do
final da juventude, e por aí vai.
Com relação a
edição, não vi defeitos, a capa é linda, a organização é delicada, a fonte e o
papel daquele jeito que amamos, a Biblioteca Azul realmente trouxe algo digno
da autora e da obra; eu tenho a 2ª edição, lançada em 20 março 2019, com
tradução de Chico Mattoso, que adquiri em promoção por um preço muito
acessível.
Por fim eu o
considero um ótimo romance, leria de novo sim depois de um tempo, a obra nos
faz querer realmente saber mais da autora e ler suas outras criações, eu o
avalio como 5/5, não sairá mais da minha estante, pois já alugou seu lugarzinho
ali com toda a sua carga emocional e primazia em descrever sentimentos
profundos de um coração aflito e inquieto, um âmago de jovem que quer tudo e
não consegue nada ao mesmo tempo.
“Por onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um
navio, um café parisiense ou Bangcoc -, estaria sempre sob a mesma redoma de
vidro, sendo lentamente cozida no meu próprio ar viciado.”
(p. 208)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
Comentários
Postar um comentário