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Iracema (por José de Alencar)



  "O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia no bosque como seu hálito perfumado"

(p. 12)


  Como não se apaixonar pela beleza da virgem dos lábios de mel que habitava as serras do novo mundo, símbolo máximo da própria América? Agora amo uma mulher que nunca vi nem toquei, a não ser com a minha alma.

    O poema em prosa de José de Alencar trata de representar o nascimento lendário do Ceará, sua terra natal, por meio de uma alegoria genial à história da colonização do Brasil pelos invasores, o povo europeu. Aqui vemos Martim Soares Moreno, português aliado do bravo povo das praias, os Potiguaras, sendo flechado no peito pela doce filha de Araquém do povo guerreiro das serras, os Tabajara. Uma doce e aguerrida paixão nasce daí em meio aos conflitos dos povos indígenas entre si com a intervenção de franceses e outros colonizadores descambando numa história de amor e nascimento de uma nova gente.


"O melhor dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel açucena."

(p. 33)


    É muito sugestivo não pensar que essa flechada logo no início da obra não fosse uma alegoria da flechada do cupido que logo ata o guerreiro branco a índigena valente, devo admitir que me enrubescia ao ler as declarações de amor que cada um fazia ao outro disfarçadas de cordialidade. 

    O estilo escolhido e também explicado pelo autor numa carta anexada ao livro acerca da linguagem utilizada para exprimir o modo de pensar e de se comunicar dos selvagens brasis (termo antigo para o nativo brasileiro) é de um primor que nunca vi em outrora, a própria obra é por si só uma obra prima, vi alguém falar mal dele na internet e me revoltei instantaneamente, como não se deslumbrar com o esmero literário e o enredo romanticamente trágico nessas páginas? Além de ser cômico ao se ler que lhe recaiu a demanda que ele tentara lançar a outrem.

    Confesso que a leitura se tornou extremamente pessoal desde antes de me chegar o manuscrito em mãos, quando alguém me citara que Duna do Frank Herbert, na verdade, não era senão uma atualização de Iracema com temática espacial, como amara os filmes, já me via apaixonado pela história da virgem dos lábios de mel. Só que me vi perdido no primeiro capítulo, aí quando terminei de ler toda a obra e fui reler o começo do livro, desabei-me em tristeza por finalmente entender o que se passava. Além disso, o final me doeu até o tutano dos ossos, não esperava por aquele encerramento fatal para a nossa guerreira, fiquei em silêncio por vários minutos quando fechei o livro e de luto por alguns dias... Logo agora que tive de dar adeus a minha Iracema, me sinto um Martim, homem sem dó a mulher que ama, agora vivo o luto de dois amores.


"A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ela a grande noite."

(p. 36)


    A edição que obtive da editora príncipes é o auge da simplicidade excelente, é bela, é boa e é barata (o clássico BBB como sempre falo), a diagramação é esplêndida, a capa é belíssima, talvez a mais linda que já vi para essa obra nas livrarias digitais e físicas, e olha que eu ainda consegui um desconto, o que me saiu ainda mais econômica, mais módica que uma coxinha.

    Iracema é um tesouro na minha biblioteca e no meu coração, nota máxima. 


"Tudo passa sobre a terra."

(p. 121)


Resenha por John Miranda

@john.miranda_ejma

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