“Não estou em condições de sacrificar o indispensável na esperança de obter o supérfluo.”
(p. 14)
Há algo de proveitoso em se aventurar por livros sem saber nada sobre eles, essa obra é um daqueles achados inesperados que você agradece ao destino por ter colocado em suas mãos, pois quem diria que uma novela tão curta fosse ter um efeito tão grande em meu espírito.
Em uma roda de amigos em volta de uma mesa de carteado, somos introduzidos a curiosa história de uma condessa que possui o misterioso segredo para vencer qualquer jogo com três tiradas incríveis de cartas, o que, por sua vez, desperta a curiosidade do ambicioso, porém cheio de temores, Hermann. Após encontrar uma brecha no coração da bela Lizanka pela qual pode ter acesso a tal condessa, o jovem põe em prática seu plano mestre sem saber que a aposta que está fazendo talvez seja alta demais.
Nos proporcionando uma mistura inesperada de mistério, ganância e sobrenatural, o autor consegue nos prender logo de cara com um relato instigante de um parente dos personagens de entrada e depois nos leva a ficar boquiabertos com um final delirante. Sua extensão não me permite entrar muito nos detalhes, mas o Hermann pode ser classificado facilmente como um daqueles personagens clássicos dos romances eternos que gostamos e a Lizavieta carrega tanta opressão de seu potencial que eu particularmente tive dó dela do começo ao fim.
Depois pesquisei um pouco sobre e descobri que o Pushkin escreveu a novela no outono de 1833 enquanto estava isolado na propriedade rural de Boldino, um período extremamente produtivo e criativo de sua vida, ou seja, todos escritor mais um bom período de isolamento é a receita certa para ótimos livros. A obra também é considerada uma das primeiras incursões da literatura russa no terror psicológico e no realismo fantástico, esse desespero e loucura crescentes que vemos no Hermann antecipam temas que seriam profundamente explorados por autores como Fiódor Dostoiévski.
Essa é mais uma das edições acessíveis da Principis, mas devo destacar que dessa vez eles foram além e nos apresentaram uma estética singela, porém forte e atraente, sem dúvida me agradei bastante desse livro que tem seu lugar guardado na minha biblioteca pessoal, acredito que lerei ele novamente algum dia, nota máxima para o trabalho do Pushkin.
“Duas ideias fixas não podem coexistir no mundo moral, da mesma forma que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no mundo físico.”
(p. 73)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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