A voz silenciosa (1893) de Gerald Edward Moira
Em uma época em que tudo parece gritar, há uma pintura que nos convida ao oposto: ao silêncio.
Nessa obra, uma jovem escuta algo que ninguém mais ouve, seus olhos não estão focados no mundo ao redor, mas parecem presos a uma presença que não se vê, apenas se sente. A moça não responde, não questiona, apenas ouve e isso nos diz muito. Que maravilhas você ouvirá quando ficar calado em um lugar de completa calmaria?
Na filosofia, escutar é um gesto mais profundo do que simplesmente ouvir sons, ela é um ato de abertura, para Martin Heidegger, por exemplo, só escuta quem é capaz de se dispor ao mistério do ser, ou seja, quem silencia suas certezas e abre espaço para algo que vem de fora… ou de dentro. A figura espectral que sussurra à jovem talvez represente esse "algo mais"... Um chamado? Um despertar? Uma verdade revelada?
A filosofia costuma buscar sentido, mas nem todo sentido se deixa capturar por palavras, alguns são experimentados, intuídos, sentidos. É nesse lugar sutil, entre o pensamento e o sentir, que a obra de Moira nos toca, ela fala de um tipo de presença que não se prova, mas se reconhece. Talvez você já tenha sentido isso também: um chamado sem som, uma presença sem forma, uma verdade que não grita, mas transforma.
O silêncio é exigente, demanda intencionalidade e força de vontade, porém, na pressa cotidiana, perdemos a capacidade de ouvir o que não fala alto, estamos bombardeados de ruídos, atolados em poluição sonora, nossos ouvidos estão aturdidos de tanto barulho sem sentido que mal conseguimos ouvir a voz da razão ou da sabedoria. A voz silenciosa da obra compete com tais ruídos e por isso exige atenção e uma entrega confiante da disponibilidade, pois só escuta quem desacelera, só entende quem abre espaço retirando o áudio imundo para acolher a doce fala, talvez por isso, a jovem da pintura não demonstre medo, ela está vulnerável, sim, mas não frágil, está entregue àquilo que só se compreende com a alma.
A pintura de Gerald Moira é uma poesia visual sobre o mistério do invisível. Seu simbolismo, ainda que sutil, nos convida à introspecção e à escuta. Seja como arte ou como alegoria espiritual, A Voz Silenciosa fala de algo essencial: há momentos em que o mais importante não é falar, mas saber ouvir — especialmente a aquela que clama ao coração.
Há uma voz incansável e cheia de boas novas para te contar, ansiando para ser ouvida e tudo o que você precisa fazer é parar e escutar, como o Mestre um dia falou..."Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." (Mateus 11:15)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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