TÍTULO: A anatomia de um luto
AUTOR: C. S. Lewis
EDITORA: Thomas Nelson
PÁGINAS: 105
PERÍODO: 19-20/01/2024
“Mas o que devo fazer? Devo fazer o uso de alguma droga, e ler não é uma droga suficientemente forte agora. Ao anotar tudo (tudo? Não um pensamento em cem) acredito que consigo sair um pouco disso.”
(p.37)
IMPRESSÕES:
Nunca é fácil falar de perdas, principalmente se você já tiver sido uma vítima do luto, ainda mais escrever sobre tais coisas, imagina publicar tais sentimentos expressos numa folha? Há aqueles que são permeados por essa aura de despedidas forçadas pelas pessoas que amam e outros que são poupados até certo período da vida, mas, uma hora ou outra, todos iremos encarar esses períodos de desolação, que, todavia, tornam-se mais suportáveis com a companhia certa, feito esse livro.
Logo após a trágica morte de sua esposa, realização de seus sonhos juvenis feita em seus anos avançados, C. S. Lewis grita alto suas angústias incontroláveis como uma forma de sobreviver aos momentos insanos do meio da noite, como ele mesmo disse. Essa obra é uma expressão nua e crua das meditações e reflexões honestas de um homem apaixonado e um amoroso enlutado no mais puro caminho de trevas que há, a tragédia da perda. Um registro belo e inflexivelmente sincero de como até mesmo um dos maiores e melhores exemplos de cristãos firmado na fé no meio do desespero que a realidade nos faz encarar. Qualquer um está vulnerável à perder todo o senso de significado no universo e começar a ter questionamentos existenciais, mas, com os olhos fixos no Eterno, pode gradualmente superar a perda de entes queridos e se recompor.
“você não consegue ver direito enquanto seus olhos estiverem turvos de lágrimas.”
(p. 73)
Eu ganhei esse livro de presente de aniversário ano passado, ansiava muito para que o lesse, contudo, a fila da leitura estava enorme e ele ficou para esse ano no cronograma, no finalzinho inclusive, mas há um mês atrás perdi meu tio e agora acho que demorei demais para lê-lo (o apelido do meu tio era Lelo), isso tornou a leitura ainda mais necessária e impactante, foi reconfortante ver que alguém tão além como o Lewis padeceu com as mesmas questões que eu.
Eu o devorei numa manhã, da hora que eu acordei até um pouco depois do ápice do sol no céu desse verão quentíssimo, ele também não é muito extenso, ainda assim a profundidade dos questionamentos e das reflexões do nosso narniano original nos leva a ficar enlutado junto com ele, revendo toda a trajetória desse fenômeno essencial da existência humana, como não se identificar com ou se compadecer dele? Algum dia todos nós fomos ou seremos alguém como ele, espero que possamos nos apegar a luz da esperança de Cristo e sair desse poço de trevas assim com ele o fez.
“A perda é uma parte universal e integral de nossa experiência de amor.”
(p. 78)
Disse repito: a Thomas Nelson conseguiu criar uma das melhores coleções já feitas nesse país, na verdade, o autor fez todo o trabalho, mas não tira o esmero que a editora teve com a capa e a diagramação impecáveis, as notas guias e a tradução bem feita, todo esse carinho com esse gigante da literatura cristã e grande pensador do século passado, que é o Lewis, me faz querer comprar todos os exemplares da coleção, uma meta bem firme. Vale ressaltar aquele defeitinho, as edições de capa mole, apesar de serem semelhantes em quase tudo das de capa dura, tem tamanhos diferentes entre si, o que pode mexer bastante com pessoas mais ficcionadas na métrica de suas aquisições literárias.
Doloroso, aflige a alma com uma dor aguda que todo humano sabe sentir, embora não consiga expressar em sua plenitude, universalmente particular, um luto dissecado e, ainda assim, pouco sabemos de nós mesmos e dessa condição solenemente miserável, não sei se é uma pena ou não o livro ser tão curto, 4/5.
“A tristeza, entretanto, não é um estado, mas um processo. Ela não precisa de um mapa, mas de uma história.” (p. 87)
Resenha: John Miranda
(@john.miranda_ejma)
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