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Tudo é rio (por Carla Madeira)

 

TÍTULO: Tudo é rio
AUTOR: Carla Madeira
EDITORA: Record
PÁGINAS: 210
PERÍODO: 20/10 – 28/12/2023

 

“O amor, quando nasce forte, tem pressa de ser eterno.”

(p. 87)

 

IMPRESSÕES:

 

Um dia uma colega de sala chegou até mim e começou a falar que eu devia ler um tal livro que lhe impactara muito, eu tinha quase uma centena na fila para se ler, mas ela tanto insistiu que me entregou o livro em mãos junto a uma ameaça caso não o devolvesse. Agora aqui estou eu, vivendo mais um dilema na minha vida, o de achar que não deveria ter lido esse romance em vez de continuar minhas outras leituras e perplexo com o que acabara de experienciar naquelas páginas.

O livro conta a história de Dalva e Venâncio, um casal que muda de vida após uma grande tragédia causada pelo ciúme doentio do marido, daí que surge o triângulo amoroso formado por eles e Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que abre o romance e entra na história do casal graças a sua obsessão sexual compulsiva. A história flui sem parar, revelando a metáfora do rio ao mesmo tempo em que o suor, a saliva, o sangue, as lágrimas e o sêmen são usados pela autora que conduz a narrativa de forma precisa, e ao mesmo tempo, delicada e poética.

Então eu cheguei em casa com a obra física e li? Não, passei semanas até abrir aquele livro, estava super atarefado, mas assim que tive um tempo livre e o fiz, li mais da metade em duas noites. O início é extremamente viciante, o sentimento é de um carro em alta velocidade ter pego você em plena pista e te levado sem mais nem menos numa carona para a vida de Lucy, uma meretriz com complexo de superioridade e ninfomaníaca que acaba tendo seus serviços promíscuos recusados pela primeira vez na vida.

Isso de certa forma havia me ganhado, Venâncio aparentava um personagem complexo e intrigante, só para quebrarmos a cara ao descobrir o crime que havia cometido para com sua mulher e próprio filho, repetindo cruelmente o destino do pai. Dalva e sua família por outra lado contrastam com esses dois, são animados, felizes, tem seus defeitos, mas tratam tudo com simplicidade e amor, lembrou muito minha família, coisa de gente do interior, aquele calor humano que cura. A trama se segue e é ótimo ver a Lucy dando tudo de si (perdão o trocadilho) para conquistar o marceneiro bruto e amargurado, a reviravolta que a faz alcançar seu desejo foi bem pensada e construída, achei que tudo havia acabado ali, mas só estava começando, o que me deu mais vontade de continuar naquela narrativa.

Entretanto tudo foi se alongando demais, acabei parando a leitura, em parte pela vida que se tornou complicada demais e em parte pela própria autora que começara a enrolar a história. Demorou alguns meses de recuperação até que eu voltara com o hábito da leitura, terminei em mais um dia (foram três no total), o que aguçou meu desejo por continuar foi a chegada do bebê que deu um tom perfeito para o encerramento dessa trama. Contudo não foi assim, a autora forçou um pouco o final feliz, que foi legal, mas que infelizmente só revelou furos de roteiro nos acontecimentos anteriores, que com a linguagem fula, usada só pra saciar a demanda de notas sexuais na literatura atual e os fracos leitores de hoje em dia, são os pontos negativos da obra no geral.

A diagramação me surpreendeu bastante junto com as divisões de capítulos, deve ser porque o livro não é tão extenso, entretanto foi um acerto sem dúvidas, gostei tanto que penso em o copiar. De resto, a editora fez um bom trabalho como sempre, em corolário, não posso deixar de mencionar a beleza estonteante da capa que ganha qualquer um à primeira vista, com certeza uma das mais intrigantes e chamativas que já vi.

Esse livro é um acontecimento, disse minha outra colega, não chega à tanto, apesar de ter ganhado parte do meu acervo literário metafísico (já que não o tenho, devolvi depois de dois meses), as metáforas com água são o norte e a essência do romance que toma pra si a característica caudalosa e flui com profundeza e sensibilidade, não há como negar, o tema é bom, há uma vau (seguindo os trocadilhos com rio) poético na autora, existe um bom desenvolvimento de personagens e ele foi bem escrito: um modesto 4/5.

 

“O amor é alegre, se não é alegre, não é amor.”

(p. 157)


Resenha: John Miranda

(@john.miranda_ejma)

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