Pular para o conteúdo principal

HealerBug - Prólogo (por John Miranda)

O que fazer quando as fronteiras entre as realidades se desvanecem completamente?

 

Em 2010, a Bifrost Co. & Games, uma empresa especializada em jogos de realidade virtual com a temática de fantasia e ficção científica, lançou seu primeiro jogo de realidade virtual de desenvolvimento continuo.

Valhalla foi um sucesso mundial, um jogo sem igual experienciado por um sistema computacional de visores e sensores de movimentos que ficavam em uma pequena plataforma eletrônica, os quais eram chamados de Drakkr. Eles permitiam que os usuários sentissem como se estivessem fisicamente presentes e ativamente interagindo com os personagens e os ambientes virtuais programados.

 Depois de cinco anos na ativa veio a se tornar um dos jogos mais populares e influentes da história, com a maior base de jogadores online por hora e seu grande impacto cultural e econômico.

Uma década depois de seu lançamento, a empresa anunciou que estaria fechando todos os servidores do jogo para uma nova e grandiosa atualização que levaria a experiência de realidade virtual para um novo patamar nunca antes visto.

Aparentemente a equipe de criadores do jogo tiveram um insight de algo que poderia revolucionar os padrões eletrônicos e coroar sua criação como jogo mais real e marcante do mundo.

Levou seis meses com todos os servidores estagnados antes que a empresa divulgasse em todas as plataformas digitais e em primeira mão no seu evento de teste beta os mais novos equipamentos de imersão digital que haviam desenvolvidos.

Foi um marco tecnológico na história da humanidade, só os criadores tinham total conhecimento de como chegaram naquele tipo de avanço cientifico, eletrônico e computacional afim de desenvolverem algo tão extraordinário como as Naus, os novos meios para imersão digital que tinha a forma de capsulas para o corpo inteiro experimentar de realidade virtual.

Então o Elysium foi lançado e não havia limites para o que os jogadores podiam fazer, podendo se conectarem a uma vasta rede neural que permitia acessar a realidade virtual magnífica nunca vista antes, mais cativante e diversificada do que a versão anterior do jogo.

Dessa vez ele trazia duas modalidades, a saber, a arena de combate entre os jogadores nomeada de Ilíada onde os usuários poderiam se digladiar para demonstrarem quem tinha maior maestria no jogo e o modo história que ficou chamado como Odisséia onde os jogadores vivenciavam aventuras pelo extenso mundo aberto que se descobria diante de suas mentes estimuladas.

A rede online do Elysium, a TEIA (Trabalho para Entrelaçamento de Interação Aprimorada), sempre fora alimentada por uma tecnologia revolucionária conhecida como Sincronia Mental, que permite que a mente humana se conecte perfeitamente com o mundo virtual. Ao entrar na rede do jogo, os indivíduos experimentam uma sensação de expansão da consciência, onde suas mentes se tornam uma com o tecido da realidade digital.

O que fazia com que as possibilidades fossem tão infinitas quanto o mundo que fora criado para ser desbravado. As pessoas podiam passar horas explorando paisagens surreais, enfrentar criaturas mitológicas, desafiar as leis da física, forjar equipamentos e criar obras de arte imersivas ou simplesmente relaxar em ambientes paradisíacos.

Cada experiência na Teia era única e personalizada, adaptando-se aos desejos e preferências de cada indivíduo. Logo o jogo se tornou o esporte eletrônico mais bem quisto das últimas décadas, influenciando pesadamente a economia mundial de um jeito totalmente inédito.

Até que no final daquele mesmo ano os casos de morte nas Naus do Elysium começaram a surgir. Um bug[1] no jogo que fazia com que as pessoas que experienciavam a morte virtual no modo Odisseia também falecessem fisicamente na vida real, nomeado como O Novo Cavalo de Tróia.

A empresa e os criadores do jogo anunciaram a sua perplexidade em público, ressarciram as famílias por suas perdas e deram início a uma grande operação, as Cruzadas Virtuais, para a vistoria e a recalibragem tanto das funções das Naus como do código fonte do jogo afim de resolverem aquele mal inesperado.

A Ordem dos Cavaleiros Virtuais foi uma divisão criada pela Bifrost Co. & Games em parceria com a INTERPOL[2] para ser uma organização tática terceirizada que é responsável por combater qualquer tipo de crimes virtuais como terrorismo tecnológico, tráfico de mercadorias e dados por vias digitais e crimes cibernéticos dentro e fora do jogo.

Ainda assim, a contragosto de alguns e aclamado pela maioria, eles optaram por não desativar o jogo já que só um dos modos fora afetado, deixando a Ilíada com o servidor aberto e funcionando oficialmente, o que fora o bastante para manter a margem de lucros e ainda assegurar a posição incontestável de melhor jogo do mundo apesar do escândalo.

Ainda assim, o modo Odisseia ainda está ativo e aberto para qualquer um que queira se aventurar, contanto que assine um contrato de responsabilidade, enquanto a operação de reajuste da modalidade não conseguiu atingir seu objetivo de restaurá-lo novamente à segurança de outrora.

O que deu brecha para muitos se arriscarem em busca de novos itens, magias, equipamentos, instrumentos, buffs e debuffs, habilidades e componentes, todos agora muito raros, para venderem no mercado negro das camadas mais profundas da internet afim dos jogadores competitivos da Ilíada conseguirem alguma vantagem extra nas arenas.

Tudo isso debaixo do nariz da Ordem dos Cavaleiros Virtuais que vierem se corrompendo ao longo dos meses devido as oportunidades de lucro por seus serviços de vista grossa e apoio escuso nas atividades clandestinas dos hackers e criminosos digitais que potencializaram a comercialização dos dados do jogo como uma nova fonte de renda ultra rentável.

Destarte, a nossa realidade ganhou uma nova faceta, uma boa parte da população mundial, principalmente as de países de terceiro mundo abaixo oprimidas pelo mesmo sistema político-econômico de sempre, achou promissora a ideia de arriscar a vida em prol de uma quantia monetário maior que a de um salário mínimo estatal.

O número de baixas no início foi estratosférico, mas logo se equalizou quando surgiram fontes confiáveis de divulgação em massa dos tutoriais necessários para enfrentar campanhas e inimigos feitas por jogadores estrelas que transmitiam seus feitos em tempo real, geralmente os mais imbatíveis de todo o sistema.

Estes avatares foram carinhosamente apelidados de algo divino justamente por estarem nos mais altos níveis ao ponto de poucos poderem enfrenta-los, os próprios criadores acataram essa ideia e estipularam um ranqueamento para nivelar seus usuários de modo que só possa existir um número restrito dessa e das outras categorias inferiores.

A classificação se dá pela seguinte maneira: Semi-Deuses (apenas 12 jogadores no mundo), Lendas (só 120), Mitos (1.200 no total), Heróis (em suma, 12.120), Campeões (121.212 usuários), Elites (1.212,121 avatares), Veteranos (12.121,212, basicamente a maioria dos jogadores que estão na ativa após um ano de jogo e podem finalmente serem ranqueados).

Para subir na patente é preciso derrotar no mínimo três da classificação superior em combates no modo Ilíada, o que por si só é uma tarefa impossível para aqueles que não se arriscam na modalidade Odisséia, e também é o que impulsiona os jogadores a arriscarem suas vidas em busca de ouro e glória.

Mas há aqueles que almejam um prêmio maior, para estes só vencer e lucrar não é o suficiente, é preciso algo mais... algo... melhor!



[1] Um erro ou falha no código do software que causa comportamentos inesperados, glitches visuais ou problemas de funcionamento durante a performance do jogo; o nome vem do inglês pra designar um inseto, algo indesejado que contamina o ambiente.

[2] A Organização Internacional de Polícia Criminal é uma organização internacional que facilita a cooperação policial mundial e o controle do crime.


Autor: John Miranda

(@john.miranda_ejma)

Comentários